Trinta e dois adolescentes de Macatuba aproveitaram a oportunidade e participaram da oficina Fotografia: Diálogos entre a Ciência e a Arte, coordenada pelo professor Gustavo Falqueiro e realizada através do programa Ponto MIS. O curso rápido aconteceu na quarta-feira, dia 12 de novembro, no Teatro Municipal. Além de conhecer os fundamentos da fotografia, os alunos construíram sua própria câmara escura (confira na galeria de fotos), que é um tipo primitivo de câmera fotográfica. Em entrevista, Gustavo Falqueiro disse que o objetivo da oficina é despertar o olhar dos alunos para além da fotografia como objeto, mas como produto de um saber humano.
Você visitou várias cidades levando sua oficina de fotografia, oportunidade também trazida a Macatuba.
Gustavo Falqueiro ? Sim, este é um projeto do MIS (Museu da Imagem e do Som) que faz parcerias com vários municípios do Interior paulista. Em dois anos no projeto, já estive em muitas cidades. O mais rico do projeto é a diversidade de público que a gente encontra em cada município. Em Macatuba, recebemos mais de trinta alunos, a maioria dos ensinos fundamental e médio. Por ter uma parte prática de construção de objeto que forma imagem, o público interage bem nesta oficina de fotografia.
A proposta da oficina excede o olhar fotográfico e alcança a reflexão sobre a imagem, a pensar sobre a imagem.
Gustavo Falqueiro ? Exatamente. A gente parte da construção de um objeto que forma imagens (câmara escura) buscando o sentido de trabalhar os princípios desta imagem. A oficina aborda a história da imagem fotográfica, que não se resume a um celular ou câmera digital de última geração. Este é um saber que vem há muito tempo e que acaba enriquecendo o processo fotográfico de hoje. Entendendo o passado, entende-se o presente. É neste sentido.
O saber antigo se atualiza nos novos meios de captação da imagem, da câmara escura à tecnologia do celular moderno?
Gustavo Falqueiro ? Do século XX para o século XXI, a fotografia se massificou intensamente. Com as novas mídias, os celulares têm câmeras de boa resolução, produzem boas imagens e de fácil acesso às pessoas. Pode-se dizer que a fotografia praticamente se universalizou na sociedade contemporânea. Por isso, faz-se importante pensar a imagem e não ficar produzindo e reproduzindo. O objetivo é que as pessoas passem de reprodutores de imagens para criadores de imagens.
A proposta é ir além das selfies (fotos de si mesmo)?
Gustavo Falqueiro ? É uma coisa importante a se questionar sobre as selfies, todo mundo fazendo foto de si mesmo. Essas imagens são diferentes ou são iguais? A gente acaba reproduzindo um pouco o olhar que nos é passado e nos é dado no sentido do que é belo. E acabamos esquecendo nossa individualidade. Acho importante pensar um pouco sobre o tipo de imagem que nos veem e que tipo de imagem nós mesmos fazemos. Se olharmos as redes sociais e percebermos que as selfies que faço são iguais às que todos os meus amigos fazem deles, acabo não sendo eu mesmo, mas sendo todos os outros.
A oficina não ensina apenas os fundamentos da fotografia, mas abre a mente sobre o tratamento da imagem fotográfica. É isso?
Gustavo Falqueiro ? Procuro fazer o resgate histórico da fotografia no sentido de discutir e mobilizar vários saberes que estão envolvidos na imagem fotográfica. A fragmentação do conhecimento que temos hoje, principalmente dada pela escola... Os alunos são bombardeados com 12 disciplinas diferentes, cada uma com seus 45 minutos e fechadas em si mesmas, com pouco diálogo entre elas. A partir do momento em que se começa a ir para o passado, percebe-se que aquilo que se entende de física hoje era abordado pela matemática, que a câmara escura foi criada por um médico... Você começa a mobilizar vários saberes que hoje nos parecem desconexos, mas que na antiguidade fazia sentido pensá-los juntos. A gente tenta abarcar um pouco deste saber da matemática, da medicina, da filosofia, do estudo biológico... Porque a câmara escura surgiu para se entender o funcionamento do olho. Depois os artistas foram nos médicos para entender como o olho funciona para, depois, poderem pintar da forma que a gente enxerga... Então, este saber também está na arte. Se formos aos cientistas, a construção da luneta se apropria do saber da câmara escura. Enfim, temos muitos saberes em volta de um único objeto. A riqueza deste objeto, de tentar discuti-lo e construí-lo, nos permite perceber que os vários saberes que temos e que aparentemente são desconexos, se reúnem em nós no sentido de pensar o mundo.
Pensar o ser humano menos cartesiano e mais holístico?
Gustavo Falqueiro ?Sim, bem por aí.